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segunda-feira, 14 de março de 2011

O demônio da Tanoaria

Arthur Conan Doyle
Não foi coisa fácil trazer o "Gamecock" até a ilha, porque o rio arrastara tanta lama que os bancos se estendiam muitas milhas pelo Atlântico a dentro. A costa ainda mal se via quando a primeira linha branca de arrebentação nos preveniu do perigo, e desse ponto em diante avançamos com muito cuidado com a vela grande e a bujarrona, conservando a arrebentação da água bem para a esquerda, como estava indicado na carta.
Mais de uma vez a quilha tocou na areia (estávamos calando um pouco mais de seis pés, naquela ocasião) mas tivemos sempre jeito e porte para passar. Finalmente, a água encheu-se rapidamente de bancos, mas tinham mandado uma canoa da feitoria e o piloto Krooboy levou-nos até uma distância de duzentas jardas da ilha.

Aí lançamos ferro, porque os gestos do negro indicavam que não podíamos esperar avançar mais. O azul do mar mudara para o castanho do rio e mesmo ao abrigo da ilha a corrente cantava e remoinhava em volta da nossa proa. A maré parecia estar cheia porque passava acima das raízes das palmeiras e, por todos os lados, sobre sua superfície barrenta e oleosa podíamos ver pedaços de madeira e destroços de toda espécie que tinham sido arrastados pela enxurrada.

Quando me certifiquei de que estávamos firmes em nossa ancoragem, pensei que era melhor começar a tomar água imediatamente, porque o lugar parecia inquinado de febres. O rio denso, os bancos lamacentos e lodosos, o verde brilhante e venenoso da mata, o vapor úmido no ar, eram outros tantos sinais para quem soubesse lê-os. Mandei portanto arriar o escaler com dois grandes odres, que seriam suficientes para durar até chegarmos a São Paulo de Loanda. Quanto a mim, tomei o bote pequeno e remei para a ilha, porque podia ver a bandeira inglesa flutuando acima das palmeiras para marcar a posição do entreposto comercial de Armitage & Wilson.

A mão do hindu

Todos sabem que Sir Dominick Holden, o famoso cirurgião da Índia, fez-me seu herdeiro, e, desse modo, transformou um médico pobre num opulento proprietário. Muitos, também, sabem que, pelo menos, cinco pessoas se atravessaram em meu caminho, por julgarem a escolha de Sir Holden arbitrária ou caprichosa.
A estas, posso assegurar que estão redondamente enganadas e que, embora eu conhecesse Sir Holden apenas nos últimos tempos de sua vida, ninguém fez mais por lhe merecer a estima. Posso, mesmo, afirmar que, em toda sua vida, ninguém fez mais por ele. Não pretendo que aceitem a minha afirmativa, nem que creiam no que vou contar; parece obra de pura imaginação; mas, como me sinto no dever de contá-la, aqui a ponho, quer me creiam, quer não.

Sir Dominick Holden foi o mais notável cirurgião da Índia, no seu tempo. Começou no Exército mas, depois, estabeleceu-se, como particular, em Bombaim, donde era clamado para todos os pontos da Índia. 
 
Seu nome está muito ligado ao Hospital Oriental, por ele fundado e mantido. Tempo veio, entretanto, em que a sua constituição de ferro começou a dar sinais de cansaço, fazendo com que seus colegas (talvez não desinteressadamente) unânimes em aconselhá-lo a voltar à Inglaterra. Sir Holden resistiu quanto pôde, até que seu estado se agravou e ele ressurgiu em Londres, alquebrado, em busca de Wiltshíre, sua terra de nascimento. Lá, adquiriu uma grande propriedade, na fímbria da Alisbury Plain, e consagrou seus últimos anos ao estudo da Anatomia Comparada, que era sua vocação e na qual se tornara autoridade Mundial.